17 agosto 2012

Horta comunitária transforma vida de comunidade quilombola em Diamantina

No entorno de São João da Chapada, pequeno distrito de Diamantina, vivem pequenas comunidades de origem quilombola que há anos foram deixadas à margem da sociedade. Desde os tempos da extração de diamantes, quando os garimpeiros as expulsaram de suas terras, essas pessoas foram relegadas a viver em meio à pobreza extrema, em situações de risco social. Só que, de uns tempos para cá, um novo horizonte surgiu tendo como ponto de partida uma simples horta comunitária, de onde elas colhem muito mais do que legumes e verduras: colhem cidadania.

Em julho do de 2011, foi implantado na comunidade o projeto “Plantar, colher, comer”, uma iniciativa do ChildFund Brasil, antigo Fundo Cristão para Crianças, em parceria com o projeto Caminhando Juntos (Procaj). A coordenadora geral da organização, Joariza Conceição Souza Santos, conta que o primeiro passo foi fazer um diagnóstico da situação, que revelou serem as maiores carências a alimentação irregular e a falta de um espaço comum de convivência. Outros fatores percebidos foram o isolamento geográfico e cultural, segregação racial da população, pouca organização para a participação, nenhuma representatividade política, falta de acesso a políticas de infraestrutura e investimentos socioeconômicos. Nesse contexto constatou-se que as crianças sofriam com a fome e a desnutrição infantil, envolvimento dos pais e jovens com drogas, abandono paterno dos lares, exploração sexual infantil, dentre outras mazelas.

“Demoramos meses para conseguir nos aproximar dessas pessoas. Elas eram arredias, por conta de histórico de desprezo e hostilidade por parte da sociedade”, conta Joariza. Para reverter a situação, primeiro foi disponibilizada uma casa para servir de espaço de convivência para 250 pessoas de 48 famílias. A partir daí, elas passaram a ter acesso regular a alimentação de qualidade com o cultivo de uma horta com legumes e verduras variados, com posterior ampliação para um pomar e um aviário de onde se tira a carne os ovos. Um engenheiro agrônomo foi disponibilizado pela Emater para ministrar oficinas sobre técnicas sustentáveis de cultivo de hortaliças e frutíferas, técnicas de criação e manejo de aves para as mulheres. Também são realizadas oficinas para desenvolvimento da organização e participação comunitária. Mas muito ainda precisa ser feito. O ChildFund está buscando recursos para atender todas as 104 famílias da comunidade.



Ao ChilFund, criador das diretrizes do projeto, coube a responsabilidade pela aquisição dos insumos necessários à produção e também pelo gerenciamento das atividades. Os recursos são advindos do apadrinhamento de crianças. O “Plantar, Colher, Comer” está dentro do contexto do programa “Famílias e organizações protetoras e integradas para o desenvolvimento”, um dos cinco programas que norteiam as ações do ChildFund, que teve, em 2011, segundo o relatório anual divulgado recentemente pela instituição, investimentos de R$ 5.527.329,59, distribuídos entre as entidades parceiras em Minas Gerais, Ceará e outros estados.

Poder da transformação

Em apenas pouco mais de um ano de implantação do projeto, a transformação na vida das pessoas já é bastante visível. Já há sobra de produção, comercializada nas escolas gerando renda para as família. “Temos muitos parceiros, mas nada é feito por doação. Ensinamos para a comunidade que todos podem fazer alguma coisa em troca para terem o que precisam”, diz Joariza. Com alimentação regular e balanceada, houve queda no número de pessoas doentes, e melhora da autoestima, com as crianças tendo melhor comportamento e aproveitamento escolar. O espaço de convivência possibilitou o convívio social, a criação de conselho de jovens e a manifestação cultural, como a dança “chula”, típica da comunidade, entre outras manifestações sociais antes inexistentes.

“Após participar de diversas oficinas e treinamentos, eu me tornei uma liderança comunitária. Hoje sou uma mulher grande em meus valores, nos meus conhecimentos, na minha cultura e na vivência com as famílias. Aproveitei todas as oportunidades que me foram apresentadas, quis mudar e ser diferente. Não me intimido mais. Hoje sei os meus deveres, mas principalmente luto e reivindico os meus direitos. Sou uma mulher realizada e enxergo o mundo com outros olhos”, reconhece Vilma de Fátima, presidente voluntária do Procaj.

A atividade também contribuiu para melhorar a convivência comunitária, pois incentiva a participação e a noção de cidadania promovendo o fortalecimento dos conhecimentos e afetividade familiar com enfoque nas mulheres, para que elas assegurem a suas crianças cuidados, nutrição e proteção em casa e na comunidade. “Eu e as mães da comunidade éramos desacreditadas, pois muitos falavam que não gostávamos de trabalhar e que só queríamos ganhar. Mas o projeto nos deu confiança e acreditou no nosso esforço, na boa vontade de crescer e vencer na vida. Com a horta, tivemos muitas mudanças. Hoje as crianças têm verduras na mesa todos os dias” diz Maria da Glória Vieira, uma das mães beneficiadas pelo projeto.

ASSESSORIA DE IMPRENSA

Flavia Presoti

Alexandre Farid
            (31) 9187-1400 

0 comentários:

Postar um comentário